
Era começo de noite na casa do avô.
A família inteira tinha sido convocada, como já era tradição, para uma daquelas reuniões em que ninguém sabe exatamente se foi convidado para comer, conversar ou tomar conta da vida dos outros.
Vieram os filhos.
Vieram os irmãos.
Vieram os sobrinhos.
Vieram os cunhados.
Vieram os fofoqueiros de plantão.
E, para completar a reunião, estavam presentes o papagaio, o passarinho e o cachorro.
Só faltava aparecer alguém vendendo ingresso.
A casa estava repleta de alegria porque aquela noite marcaria um acontecimento histórico:

Tudo maravilhoso.
Havia apenas um pequeno detalhe.
NINGUÉM SABIA FAZER PIZZA.
Meu Jesus!
Um mexia na massa.
Outro gritava:
— Coloca mais farinha!
Do outro lado alguém respondia:
— Mas já colocaram dois quilos!
— Então coloca água!
— Quanto?
— SEI LÁ!
Aquilo tinha tudo para terminar com a chegada dos bombeiros.
Mas, contra todas as previsões, a pizza saiu.
E não é que ficou gostosa?

— Pai, apresento oficialmente o seu neto.
Silêncio.
O avô olhou para o filho.
Olhou para Scoobydoo.
Olhou novamente para o filho.
— Meu o quê?
— Seu neto!
— EU NÃO TENHO NETO CACHORRO!
Pronto.
Começou o barraco.

E o filho ainda resolveu piorar:
— Scoobydoo veio pedir a pensão do vovô!
MEU JESUSSSSSSS!
O avô cruzou os braços.
— Não dou pensão e não tenho neto cachorro!
A discussão foi aumentando.
A vizinhança ouviu.
Um abriu o portão.
Outro chegou devagarinho.
Outro apareceu dizendo que estava “só passando”.
Mentira.
Todo mundo queria assistir.
E havia um pequeno problema.
Naquela reunião estavam nada menos que um juiz de Direito, um promotor de Justiça e um policial.
A pizzada virou audiência.
O promotor, todo alinhado e tentando manter a seriedade diante daquela situação absolutamente inacreditável, resolveu argumentar.
Falou em afeto.
Falou em família.
Falou que Scoobydoo precisava ser acolhido.
E tentou convencer:
— Dê uma oportunidade ao seu neto.

— Não tenho neto cachorro!
— Mas veja como ele olha para o senhor!
— CONTINUO NÃO TENDO!
Foi então que apareceu a mulher do avô.
Todos ficaram em silêncio.
Ela olhou para aquela confusão e perguntou:
— O que está acontecendo aqui?
Explicaram tudo.
Ela ouviu calmamente e finalmente declarou:
— Amor, eu aceito nosso neto cachorro.
O avô arregalou os olhos.
Mas ela ainda não tinha terminado.

Silêncio absoluto.
O avô quase caiu para trás.
O promotor perdeu a concentração.
O policial virou o rosto para não rir.
E o juiz começou a olhar para o relógio.
Meu Deus!
Como diz aquele velho ditado popular:
“O que é um peido para quem já está cagado?”
Aquela reunião já tinha pizza, cachorro pedindo pensão, audiência improvisada e discussão sobre abandono afetivo.
Agora a avó queria um bebê!
Enquanto isso, quem mais se divertia era Scoobydoo.

Pulava.
Corria.
Fazia graça.
Dava voltas.
Parecia até fazer acrobacias para conquistar o avô.
O juiz, porém, já estava perdendo a paciência.
Ele só queria encerrar aquela audiência improvisada e ir embora descansar e tomar sua cachacinha.

E naquela noite alguém jurou ter ouvido o magistrado resmungando baixinho:

Ninguém teve coragem de perguntar nada.
Vai que o “samurai” acordava de vez.
O promotor continuava sua missão.
— Vamos, vovô. Pegue Scoobydoo no colo.
— Não!
— Só um abraço.
— Não!
— Ele é seu netinho...
— NÃO TENHO NETO CACHORRO!
Scoobydoo olhou para ele.
Abanou o rabo.
Fez aquela carinha que cachorro sabe fazer quando quer conquistar alguém.
E aconteceu.
O impossível aconteceu.
O avô pegou Scoobydoo.
A família ficou em silêncio.
Ele olhou para o cachorro.
O cachorro olhou para ele.

Foi uma explosão de alegria.
— ELE ACEITOU!
— O VOVÔ ACEITOU O NETO!
O promotor comemorava o acordo.
O policial ria.
A avó estava feliz.
O filho estava realizado.
O juiz percebeu que finalmente poderia ir embora.
E Scoobydoo?
Scoobydoo caminhava ao lado do avô como quem dizia:
“Eu sabia que você não resistiria, vovô.”
Dizem que depois daquele dia os dois ficaram inseparáveis.
E contam as más línguas que o avô começou até a emitir alguns sons estranhos quando conversava com Scoobydoo.
— Au… au...
Ninguém sabe se é verdade.
Mas dizem que o neto entende perfeitamente.

O avô.
A avó.
O filho.
Scoobydoo.
O promotor, satisfeito porque conseguiu o grande acordo.
O policial, que presenciou tudo.
E o juiz, feliz porque finalmente estava liberado para ir embora cuidar da própria vida — e da sua cachacinha.
A fotografia registrou o final daquela histórica disputa familiar.
Scoobydoo ganhou um avô.
O avô ganhou um neto de quatro patas.
A família ganhou uma história para contar pelo resto da vida.
E o juiz?
Bem...

E foram todos felizes para sempre.
Ou melhor...
Quase todos.
Porque até hoje ninguém respondeu à pergunta mais perigosa daquela noite:
E O FILHO QUE A AVÓ DISSE QUE QUERIA TER?
Essa história fica para o próximo capítulo.
FIM… OU TALVEZ NÃO.

